APRESENTAÇÃO DO LIVRO

 

OS DESAFIOS DO CONTEMPORÂNEO HIPERCONECTADO

Escrever a apresentação de uma pesquisa de pós-doutorado sob minha supervisão que evolui para a publicação em livro me enche de alegria e comprometimento. Ambos – a alegria e o comprometimento – constituem facetas do fluxo e refluxo das profícuas interações dos professores com seus orientados. Importante destacar que a supervisão desta pesquisa ocorreu no contexto do Observatório da Cultura Digital do NACE – Núcleo de Cultura e Extensão Escola do Futuro – USP, cujo DNA faz-se presente em vários capítulos, da metodologia à adoção de conceitos como “literacias digitais”.

O Núcleo Escola do Futuro – USP iniciou suas atividades em 1989 como Laboratório de Pesquisa ligado ao Departamento de Cinema, Rádio e Televisão – CTR da Escola de Comunicações e Artes – ECA-USP. Em janeiro de 1993, foi instituído como Núcleo de Pesquisa - NAP, uma entidade ligada à Reitoria com foco em estudos de pesquisas universitárias. Em sua primeira década, a Escola do Futuro – USP teve como missão melhorar a educação no Brasil, através da introdução das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) e multimídia em ambientes formais e não-formais de ensino e aprendizagem. Desde o final dos anos 90, seus projetos de pesquisa têm-se centrado no mundo da Internet e das redes sociais.

Para dar sustentabilidade aos projetos de pesquisa do NAP - Escola do Futuro - USP adotou-se um modelo de parceria envolvendo universidade, governo, várias agências de fomento à pesquisa e a sociedade em geral. O Núcleo tem promovido o intercâmbio de práticas e conhecimentos entre os educadores de instituições acadêmicas nacionais e internacionais e também tem contribuído para o desenvolvimento de uma nova geração de educadores que veem a interface entre educação, comunicação e informação como um terreno fértil para a construção coletiva do conhecimento.

A sociedade contemporânea hiperconectada sugere a reconfiguração das relações sociais em toda a sua extensão e, no âmbito da educação, desemboca em novas formas de aprendizagem, ensino e produção de conhecimento. Em 2007, assumi a Coordenação Científica do NAP Escola do Futuro – USP e fundei o Observatório da Cultura Digital, dedicado a estudos sobre a sociedade em rede, para entender a cibercultura em suas dimensões de cultura do remix centrada na tecnologia digital. O Observatório da Cultura Digital tem como objetivo compreender as atitudes e comportamentos de uma população em rede, como os indivíduos interagem e reconstroem dados digitais, e também os padrões de participação nas redes sociais.

Os pesquisadores do Observatório da Cultura Digital também se dedicam ao mapeamento e compreensão das literacias digitais emergentes nesta população conectada. Para mim, o conceito de literacia abarca um conjunto de práticas sociais, como proposto por diferentes pesquisadores. Os pesquisadores também estão interessados ​​no uso de métodos etnográficos, especificamente a Netnografia, como proposto por Kozinets, e a etnografia virtual, como proposta por Hine. Eles trabalham com pesquisas quantitativas e abordagens qualitativas para entender melhor os comportamentos e as literacias dos atores em rede.

Do hibridismo da Internet emerge uma cultura que é criada e recriada em um continuum, no qual valores, sentidos, conhecimentos, narrativas e representações são ressignificados por meio das interações entre os pares. Como resultado de minhas pesquisas sobre o tema, identifico duas grandes "ondas" nas últimas duas décadas da sociedade em rede. A primeira está relacionada ao desenvolvimento e implementação de políticas governamentais voltadas à superação do fosso digital, com a oferta de acesso gratuito e ilimitado à Internet para as populações de baixa renda. O país como um todo e, em particular, o governo do estado de São Paulo em conjunto com o NAP Escola do Futuro – USP, concebeu e implementou em 2000 o "AcessaSP" - o mais amplo programa de inclusão digital brasileiro. Como em outras iniciativas, as primeiras etapas do programa de inclusão digital focaram o fornecimento de infraestrutura de conexão e ensinamento sobre como navegar na Net aos participantes. Esse primeiro momento foi muito importante para ajudar a desenvolver um sentimento de inclusão social e digital na população de baixa renda.

A segunda onda começou a surgir em 2006, após a conquista de uma taxa sustentável de inclusão digital e a identificação de que novas tendências começaram a influenciar as habilidades digitais da população conectada. Em minha opinião, esta segunda onda consiste em mapear e compreender as literacias digitais emergentes na população conectada, principalmente através dos smartphones, maior fenômeno de inclusão digital brasileiro.

A palavra literacia em Português é controversa e pode ter significados diferentes. Ela pode ser ligada à leitura e escrita. Também está relacionada com o processo de ensino e aprendizagem. Além disso, a palavra literacia pode ser sinônimo de competência ou habilidade. Considerando o contexto dos “atores em rede” na contemporaneidade, a noção de literacia também se refere à interação e à comunicação através de dispositivos digitais, refletindo o estado atual das possibilidades de comunicação e produção de conhecimento de modo individual e/ou coletivo. Assim considero que a segunda onda da sociedade em rede enfatiza que o acesso à Internet constitui um pré-requisito para a participação ilimitada ao passo que a literacia constitui um pré-requisito para o protagonismo social e cidadania.

O conceito de literacia tem representado diferentes concepções ao longo do tempo até atingir o conceito tal como o entendemos hoje. Em 1997, Paul Gilster, pesquisador interessado na tecnologia e seus impactos na sociedade, cunhou o termo literacia digital para definir "a capacidade de compreender e usar a informação em vários formatos a partir de uma ampla gama de fontes quando apresentada via computadores". Ele a descreveu como a "extensão lógica da própria alfabetização, assim como o hipertexto é uma extensão da experiência de leitura tradicional" (1997, p.230).

Em 2003, outro pesquisador, Warschauer, desenvolveu a noção de literacia dividida em etapas. Para ele, no século XIX, o conhecimento literário, precisão retórica e habilidade para escrever corretamente foram considerados parte de um paradigma que correspondia às exigências da estrutura social aristocrática, na qual a educação englobava tradição e poder. A partir da última década do século XX, na sociedade do conhecimento, a literacia tem sido associada às habilidades específicas, tais como a construção do conhecimento por meio de narrativas não-lineares, construção de novas semânticas e novas lógicas, e desenvolvimento da criatividade e da expressão.

Também é necessário mencionar o trabalho de Henry Jenkins (2008), que discute a mudança de uma cultura letrada para uma cultura de mídia e convergência, caracterizada pela não-linearidade e interatividade. Hoje, os participantes letrados da sociedade em rede são aqueles que sabem ler, escrever, interagir e se comunicar por meio da linguagem multimídia.

Outro desafio dos ambientes da cibercultura diz respeito à metodologia necessária para tratar e analisar os dados empíricos e realizar pesquisas de campo. Christine Hine (2000, 2005) é uma das pioneiras da etnografia virtual e já realizou vários estudos sobre o assunto. A etnografia virtual é amplamente utilizada em pesquisas sobre redes sociais, uma vez que tem como objetivo observar, analisar e interpretar a cibercultura, também conhecida como a cultura da participação. A etnografia virtual deu embasamento para o desenvolvimento da Netnografia, termo cunhado por Robert Cozinhes (2010) em seu livro Netnography: Doing Ethnographic Research Online.

Visando mapear e caracterizar as literacias digitais contemporâneas os projetos de pesquisa do atual NACE Escola do Futuro - USP buscam explorar o contexto crossmídia das narrativas não-lineares da Web 2.0, bem como o protagonismo emergente dos coletivos digitais em relação a produção do conhecimento em rede.  Do caldeirão digital das pesquisas do NACE Escola do Futuro – USP, surge o livro em questão buscando desvendar o cidadão contemporâneo através de sua relação com as tecnologias de informação e comunicação. Leitura necessária e instigante.

São Paulo, 17 de abril de 2017.

Brasilina Passarelli

Professor Titular do Departamento de Informação e Cultura – CBD

Vice-Diretora da Escola de Comunicações e Artes – ECA

Universidade de São Paulo – USP

Coordenadora Científica do NACE Escola do Futuro – USP


 

INTRODUÇÃO

 

A obra realiza diagnósticos pela observação de cidadãos, em uso e apropriação das TIC, na busca, no acesso, difusão da informação e no uso de tecnologia,  para alterar conteúdos existentes na Internet, produzidos para si ou para sua comunidade, ou seja o desenvolvimento da Sociedade de Serviços de Serviços. Já com os desdobramentos da Sociedade Contemporânea, pressupõe-se que estes novos comportamentos, competências informacionais,  e oportunidades trazidas pelas TIC  favoreçam, à busca da conquista da cidadania, algo já observado nos indivíduos que agora comunicam muitos pelo uso das redes sociais, barateamento dos  dispositivos inteligentes potencializando a comunicação móvel extensiva e cresente.

         Quanto a organização do Livro, ele  estrutura-em  em quatro parte,   para tentar retratar as  possíveis mudanças de comportamentos humano e o reflexo da permanente de adaptação aos novos processos, ao uso de novas tecnologias, sobretudo, a novas maneiras de comunicar e viver em comunidade e na sociedade. A primeira Parte tem um caráter mais global, pois trata de uma questão: De onde viemos e para onde vamos com as TIC no Brasil, e de certa forma mostra novos paradigmas que  fundamentam a obra.

         Esta primeira Parte  compom-se de três capítulos, o primeiro  traça o caminho iniciado lá nos marcos do final da era Industrial até atualidade. O segundo fala do surgimento no Brasil da Sociedade da Informação – Socinfo,  com os seus   vanços e retrocessos e a crônica presença das desigualdades sociais e econômicas das pessoas em nosso país. E por fim a necessidade de enfrentamento desta desigualde para avançarmos para literacia digitais de adultos fora do mercado de trabalho, idosos de baixa renda e os trabalhadores em  atividades mais braçais, longe dos computadores, mas agora com a perspectiva que se abre com celular nas mãos.

         Na  Parte II o foco do Livro volta-se para a  redução do distanciamento entre o homem e a máquina na sociedade da Informação.  Os primeiros capítulos tratam de conceitos, como ubiquidade,  convergência, e interdisciplinaridade nas TIC.  Mesmo conceitos mais tradicionais como  inclusão digital, competência em informação se desdobram na literacia digital.  Pois os cidadãos são favorecidas pelo maior acesso e uso da informação,  interativa em redes sociais,  e a presença dos smartphone nos ambientes virtual colaborativo de aprendizagem.  As expectivas e a perspectivas são  que ambos possam promover melhores condições de vida e bem-estar de comunidades, embora isto não está assegurado.  No entanto, o ativismo e a busca pela cidadania podem garantir direitos sociais plenos ou algumas conquistas no Brasil.

         A Parte III relata o caminho da investigação e como se deu intervenção social ma pesquisa em um trabalho conjunto,  com o ensino e  a extenção. Isto foi fundamental   para o suporte à presente obra,  que teve como foco o uso de dispositivos móveis, redes sociais e serviços disponibilizados na Internet abertos oferecidos pelo Governo e mercado. Nas ações de investigação  têm-se  a  otimização da difusão da informação nos ambientes virtuais de aprendizagem, em comunidades de vulnerabilidade social, o que não invalida a maioria das afirmativas para outras classes sociais. Como um projeto de pesquisa, ensino e extensão foi possível avaliar a presença de celulares em um ambiente virtual de aprendizagem, mas em áreas carentes do Distrito Federal. Para fazer frente este desafio contou-se com um plano  de trabalho onde estudantes universitários, colaboradores, líderes comunitários e professores conduziram  a intervenção social e a avaliação dos resultados.

         Com última Parte temos a aplicação das TIC na mediação da Educação, Ciências da Comunicação, Ciência da Informação  e Ciência da Computação. Os capítulos compreendem a análise de redes sócias, formação de tutores e a percepção da aprendizagem dos participantes das práticas e oficinas conduzidas professores, facilitadores líderes comunitátios e turores universitários. No último capítulo temos a percepções de aprendizagem nas práticas mediadas por smartphone. Informa-se ainda que o financiamento da Pesquisa de Campo foi garantida  pelo Decanato de Graduação da  UnB. Os estudantes de todas áreas da UnB, Comunicação, Sociologia, Letras, Ciências Políticas, Quimica  receberam bolsas. Projeto submetido e aprovado nos editais de Chamamento do CAIS/DEG/UnB para as Regiões Administrativas do Paranoá e Itapoã,  2014 e 2015.  


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