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O homem que realmente busca uma luz, uma explicação para o sentido desta vida, sente uma inquietante nostalgia, uma saudade por alguma coisa que ele nem sempre sabe expressar ou mesmo entender. Ele sente que não é parte desse mundo. Quando atinge certo desenvolvimento espiritual, uma nova alma começa a nascer, a se desabrochar, e as passagens do Sermão da Montanha ilustram bem esse despertar.

A Grande Nostalgia foi bem descrita no LIVRO de MIRDAD, vide a citações no endereço:

http://www.filosofiacienciaarte.org/livros/151-mirdad

CAPÍTULO XXX

O Sonho de Micayon revelado pelo Mestre

Certa vez, enquanto Micayon e os outros estavam se aquecendo ao braseiro, o Mestre começou a discursar sobre a Grande Nostalgia.


Bem-aventurados os pobre em espírito ou aqueles que aspiram ao Espírito – aqueles que se encontram num beco sem saída neste mundo. Eles nada mais esperam desse mundo, nada mais desejam no plano dialético – é o reconhecimento de que há duas ordens de natureza: uma, onde vivemos encarnados ou não – a ordem dialética, cujas leis se transformam em seu oposto; e a outra, divina, que não conhecemos– a ordem estática, uma ordem eterna, um estado absoluto regido por leis naturais e espirituais completamente diferentes, e que o buscador aspira encontrar.

Bem-aventurados os que choram ou os aflitos – aqueles que aspiram à Luz, do mais íntimo de seu ser. É a nova alma que difere radicalmente da condição de homem-eu, na qual padece submetido ao estado do ego do indivíduo e da humanidade. E ele entende o sofrimento da humanidade mergulhada no mundo dialético, centrada em seu ego, onde a consciência de muitos ainda é muito primitiva. Desse padecimento, dessa aflição,  nasce o desejo de salvação, o anelo pela concretização de um novo estado de alma. É uma força crística, uma vitalidade que transforma a fraqueza do aluno numa força invencível.

Bem-aventurados os mansos – à medida que a nova alma se desenvolve surge  a mansidão, o libertar-se das agressões, da cobiça e da crítica. Em virtude de seu estado interior, o manso não força nada. A coragem, segundo essa natureza decaída, sempre fere, dilacera ou destrói. A coragem nascida da ordem espiritual é o efeito de um novo equilíbrio da vontade. À medida que a nova alma de desenvolve, o buscador percorrerá o seu caminho com coragem, silenciosa e decididamente, tendo em mira apenas sua finalidade, sem se deixar demover pelos resultados dialéticos, com uma coragem desprovida de crítica, não se detendo pelo que se passa ao seu redor. Agindo de modo impessoal, ele coloca a harmonia do divino Reino da Luz.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça – mas não da fome e justiça desse mundo. Quem segue o processo da renovação se livra da mentira e da vingança, e procura a justiça da nova alma, que não é a desse mundo, através de uma visão espiritual, despertando-o para a verdadeira autonomia. O que importa é a justiça, a equidade que se encontra junto à Gnosis, que provém dela. É o direito divino, é a Ordem de Retidão e de Justiça do estado Humano divino verdadeiro, o Mundo das Almas viventes. A justiça divina nada tem que ver com a dialética.

Bem-aventurados os misericordiosos – através de uma atitude de compreensão e de amor, de perdão e proteção que o homem com a nova alma tem relação ao homem e ao mundo dessa natureza. Quem faz o bem, o bem recebe, que emana de uma ciência ancestral perdida. Isenta de qualquer forma de bondade, a misericórdia é uma forma de magia com grande poder irradiante. A magia da alma do aluno deve ser revivificada e consequentemente desenvolver a sua própria magia. A magia da alma é o meio pelo qual a magia da nova alma personalidade pode se expressar, que deve ser definida como o absoluto amor ao próximo, que tudo engloba, de forma impessoal. E esse amor nos faz conhecer a Deus, conhecê-Lo e vê-Lo em sua plenitude. “Abri a vossa alma, repartindo com os famintos o vosso Pão da Vida”.

Bem-aventurados os puros de coração – O homem de coração puro, que atinge o estado de misericórdia, se eleva para um bem ainda maior, tornado-se consciente da ordem do mundo espiritual. É quando a nova alma tornou-se adulta, amadureceu, podendo, então, contemplar a Deus, com a faculdade de assimilação da consciência, da compreensão intelectual, do poder de julgar e condenar, o discernimento, a perspicácia para examinar as diversas situações em todos os seus aspectos e inter-relações. Esse poder permite que se conceda aos homens ou às situações o auxílio correto, e faculta saber quando se deve falar ou calar.

Bem-aventurados os pacificadores – quando a nova alma alcança a maturidade, o Espírito desce e faz nascer a paz que supera toda a razão. Não uma paz dialética, mas a paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, que jamais se perderá , tampouco se violará. É a paz que permanece a despeito de toda circunstância dialética, uma paz que o aluno pode conhecer e nela banhar-se, mesmo em meio à maior violência ou à mais intensa aflição. A paz de Deus é uma harmonia perfeita, um esplendor eterno, um repouso dinâmico. É o equilíbrio entre a Idéia divina e o homem que vive n’Ela e por Ela. A Paz seja convosco. Deus é nossa paz.

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça – O homem com a nova alma é perseguido e difamado porque o homem-eu, aquele ligado ao mundo dialético não consegue compreendê-lo. A nova alma reage com tranqüilidade, compreensão, amor, alegria e conhecimento do bem e do mal. Como sol, ela brilha e propaga luz e energia, sua característica essencial. Entretanto, essa atitude de vida provoca a oposição em todos os que não admitem a natureza de Deus.

As Bem-aventuranças são fórmulas, pensamentos-chaves que revelam ao aluno diversas perspectivas e lhe abrem vários raios de ação. É um estado de felicidade suprema, é ser verdadeiramente livre.

As Bem-aventuranças finalizam com as palavras de consolação: Regozijai-vos e alegrai-vos, pois é grande a vossa recompensa e vossa vitória. Vosso é o Reino dos Céus. A Paz seja convosco.

E assim se revela uma nova interpretação de Jesus Cristo. Não é somente Jesus que é filho de Deus; todos nós somos igualmente chamados a tornar-nos filhos e filhas de Deus. A entrada de Jesus Cristo em cena pode ser considerada como um salto quântico na evolução humana quando, por exemplo, na proclamação das bem-aventuranças, há uma ruptura com os comportamentos sócio-darwinistas correntes. Neste sentido, Jesus pode ser visto como nosso “salvador” por libertar-nos do peso da seleção biológica (comportamento de competição, de autoafirmação), e por mostrar-nos, mediante seu exemplo, o “caminho para a cruz”, que seguiu de maneira pacífica e consequente, e o amor a toda vida como caminho para a cura.”

Paracelso, no Livro das Profecias, nos diz que “O homem somente precisa saber que Deus anuncia por intermédio de homens o que a divina providência determinou para o homem, isto é, a grande bem-aventurança que emerge do amor de Deus pelos homens e que ele lhes anuncia a sua redenção...”. Somente encontra a realização de todos os anseios e sonhos, isto é, a grande bem-aventurança e a redenção, quem começa a procurar o absoluto, a eterna juventude, a felicidade da liberdade perfeita no íntimo do próprio ser.

Franz Kafka, célebre escritor de Praga, fala das coisas habituais de maneira não-habitual e nos diz o seguinte em Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho: “Teoricamente, existe a total possibilidade de bem-aventurança: crer interiormente no incorruptível, e isso sem esforço”.  E “Não é preciso abandonar o teu aposento. Permanece sentado à tua mesa e põe-te a escutar. Nem mesmo terás necessidade de escutar, aguarda apenas. Nem mesmo terás necessidade de aguardar, aprende tão-somente a ficar só e calmo. Então o mundo se oferecerá deliberadamente a ti para ser desmascarado. Não há escolha: ele se dará a conhecer a ti num assomo de alegria”.


É apenas quando encontramos Deus interiormente, o incorruptível, que nos libertamos. Para dar espaço em nós ao “incorruptível”, nós nos afastaremos do mundo transitório e compreenderemos que o “Espírito” religa todos os seres humanos entre si.  Após tornar-nos conscientes de nosso estado
e ter abandonado os turbilhões em meio aos quais atuamos, chegamos a ver quem somos,
em que consiste nossa vida, o que nos faz agir
e o que nos aprisiona. Assim, vemo-nos diante da operação alquímica seguinte, e aqui se trata de um saber diferente: o conhecimento daquilo que, em segundo plano, é a causa de todas as coisas. Tentamos penetrar até o conhecimento verdadeiro,
a Gnosis. E assim, repetimos Kafka: “Teoricamente, existe a total possibilidade de bem-aventurança: crer interiormente no incorruptível, e isso sem esforço”.

Pentagrama 25 (4), 2003, pg21

Pentagrama 32(2), 2010, pg14-19

Pentagrama 31(5), pg 12-17

Paracelso – Sua filosofia e sua medicina atemproais – Klaus Bielau, 2008

O Mistério das Bem-Aventuranças – J. van Rijckenborgh, 1983.


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