Primeira edição, 2012 - PAULUS - 2012. 

 Contra Capa: Segundo Flusser, a vida constitui uma interminável viagem em busca de diferentes alvos, mas cada alvo significa apenas uma estão intermediária (Zwischenstationen), a partir da qual se partirá, depois, em busca de novas metas. Em totalidade, "a viagem é um método sem finalidade". Essa mobilidade permanente, esse nomadismo inerente é uma catástrofe na história humana, mas que pode ser encarada de forma positiva e afirmativa. Após milênios de confortável adaptações às nossas "casas"(sejam elas propriamente físicas ou existenciais), é hora de abandonar a morada e aventurar-se livremente nos espaços abertos. Como escreveu Flusser: "Esta é a catástrofe: que nós tenham de ser livres". Livres, inclusive, para deixar a confortável zona das experiências humanas conhecidas e experimentar novas identidades pós-humanas.

O ENCONTRO ENTRE E., L. e F.

Para um espírito rigoroso, nenhum homem deveria corresponder a seu nome (segundo seu significado etmológico), pois o nome próprio é palavra de Deus em sons humanos. (Alater Benjamin, Sobre a Língua Geral e sobre a Língua dos Homens, trad. de Susana Kampf Lages.)

 "A ideia para este livro nasceu, muito apropriadamente, na Alemanha, no longo inverno de 2011. Num fim de semana na pacata cidade de Kassel, E., L. e W. partilharam longas caminhadas por florestas silenciosas e friorentas e conversas sobre arte, literatura e semiótica. Vilém provou todas essas conversas, e a certa latura W. chegou a perguntar a E. qual seria uma boa escolha tradutória para o termo "ungeheuer". (O contexto era precisamente uma obra de Flusser, Dinge und Undinge (1993)). (p. 7).

"O fato de que o tema nunca antes tivesse sido investigado (ao menos explicitamente) no horizonte do pensamento de Vilém Flusser tornava o desafio de escrever um livro como este ainda mais interessante. O engajamento dos autores com seus diferentes universos de referências, e agora com esse terceiro personagem, esse exilado de Praga, engendrou um campo povoado de tensões, surpresas  e familiaridade reconfiguradas. Acima de tudo, o objetivo de L. e  E. Era dialogar com F. , grande apreciador da arte da conversão, de modo a fazer emergir de seus escritos certas ideias que pareciam construir esboços e anteprojetos para o maquinário teórico com o qual nos defrontamos no início de milénio. O encontro curioso trouxe a E. e L. A convicção de que havia muito que se aprender com F. Esse último demonstrou,  durante toda sua vida, uma saudável desconfiança face às pretenções  da ciência e da técnica. O projeto da ciência era explicar o mundo, e o da tecnologia, de dominá-lo. F.  possivelmente diria  que temos sido razoavelmente bem-sucedidos no segundo, mas miseravelmente fracassados com o primeiro. Sua singular forma de pensar e escrever apontava para um saber que não era inimigo da imaginação; [ara uma ci6encia que se alimentava das potências da ficção e do virtual. Essas peculiaridades do pensar flusseriano persuadiram  L. e  E. A produzir um estudo  também não inteiramente convencional em sua estruturação. Assim acreditavam os dois autores serem capazes de elaborar uma escrita que fosse, ao mesmo tempo, uma homenagem ao inclassificável pensador checo-brasileiro.    Oriundo da mesma cidade mágica onde nascera Kafka, que bem conhecia o poder cabalístico dos nomes e das sugestivas abreviaturas (lembremos o Joseph K. de O Processo ou mesmo o simples K. de O Castelo),  F. Teria certamente apreciado o pequeno linguístico com o qual se quer encerrar este preâmbulo:  E. e L. estão os dois contidos no nome de F. Nessa rede que entre os três  se formou,  dissoveram-se os vários nomes próprios, e a figura mesma do autor tradicional,  hoje “em vias de extinção irrevogável”, então, foi lentamente esvanecendo (Flusser, 1984, p. 22). O que restou, então,  foi uma coisa, um dispositivo, uma longa sequência de letras que só passará a ter sentido no encontro com o nosso quarto personagem, o leitor." (p. 10-11)

IV. MONSTROS, ANIMAIS E OUTROS "OUTROS"

The merciful thing the world, I think, is the inability of the human mind to correlate all its contents. We live on a placid island of ignorance in the midst of black seas of infinity, and it was not meant that we should voyage far (H. P. Lovecraft, The Call of Cthulhu). 

"Neste ponto, linguagem e semântica assumiram o primeiro plano. Pari passu com os avanços nas ciências computacionais, os biólogos moleculares passaram a compreender que o DNA "não é apenas um código, mas um código que calcula e computa. Não apenas informação, mas parte de um sistema computacional, com imputs, outputs, armazenamento e capacidade de processamento".

VII.  REPERCUSSÕES DO PÓS-HUMANO NAS TEORIAS DA MÍDIA

Nossa ferramentas de escrita também estão trabalhando no nosso pensamento. Unser Schreibzeug arbeitet an unseren Gedanken. (Friedrich Nietzsche, Schreibmaschinentexte)

"Como têm colocado as teorias da mídia diante das desestabilizadora metamorfose pós-humana? A pergunta procede porque, não obstante a pluridirecionalidade do pensamento de Flusser, é no campo contemporaneamente chamado de teoria das mídias que sua obra mais perto se abriga" (p. 155).

Kittler buscou delinear os aparatos do poder, armazenamento, transmissão, treinamento, reprodução etc.

"As tecnologias, que não apenas subvertem a escrita, mas a englobam e a carregam junto com o assim chamado Homem, tornam suas própria descrições impossíveis. Crescentemente, fluxos de dados, antes confinados em livros e, depois em gravações e filmes, estão desaparecendo nas caixas e buracos negros que, como inteligências artificiais, estão dando adeus no seu caminho de altos comando sem nome (Kittler, 1999, p. xxxix)."

De que salto se trata? Flusser (2008, p. 23) responde:

De fato, o fato é ousado. Porque a desintegração das ondas em gotas, dos juízos em bits e das ações em actomas desvenda o abismo do nada.  

 

"Poucos autores escrevem com tanto desembaraço sobre tantos e tão diferentes temas. A mobilidade de seu pensamento se assenta em conceitos que atravessam fronteiras, o que talvez sejam, eles mesmos, fronteiriços. Bastante apropriado que a Comunicologia constitua, portanto, um saber movediço no entercruzamento de conhecimentos. A partir de um ponto de vista fundamentalmente cibernético. Flusser faz da comunicação a atividade central da existência. Pois é através dela que a informação se propaga, de modo a combater a entropia e afirmar o poder da vida"(p. 172).

"Dessa forma, podemos afirmar sem exagero que cabe à teoria da comunicação um papel que antes era atribuído à filosofia, não obstante a sua ascenção dar-se em clima cultural essencialmente antifilosófico. Às escolas de comunicação compete, então, a atribuição de investigar criticamente o futuro (Flusser, 2007, p.243). Espaços de experimentação que não podem abdicar de uma dimensão artística e criativa, elas devem servir como laboratórios capazes não apenas de especular sobre o porvir, mas também de produzir esse porvir" (p. 173).  

RESENHA:

 https://www.academia.edu/30690174/O_explorador_de_abismos_Vil%C3%A9m_Flusser_e_o_p%C3%B3s-humanismo?auto=download


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