No CIO Brasil GOV 2013, o jornalista Gilberto Dimenstein moderou o Painel CIO, debateu o tema da consumerização e trouxe questões relacionadas às novas mídias, aos dispositivos moveis e à forma como o fenômeno vem transformando o dia a dia da TI.

Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo e comentarista da rádio CBN – Central Brasileira de Notícias. É ainda autor de vários livros, traduzidos para diferentes idiomas, como A Guerra dos Meninos, A Democracia em Pedaços e O Cidadão de Papel, agraciado em 1993 com o mais importante reconhecimento editorial do país, o Prêmio Jabuti.

Confira a entrevista exclusiva concedida por Dimenstein ao Portal IT4CIO, em que o jornalista comenta a importância da tecnologia para efetivar e aprimorar a cidadania.

Portal IT4CIO: Como essa visão cidadã a partir da tecnologia começou?

Gilberto Dimenstein: Eu era um jornalista típico, no sentido de buscar denúncias e fazer revelações sobre corrupção e dramas políticos. E aconteceu um fato na minha vida, ao final da década de 80, quando comecei a investigar o assassinato de crianças no Brasil, processo que deu origem ao livro chamado A Guerra dos Meninos. Depois fiz um trabalho só sobre exploração sexual de meninas, também com repercussão mundial pelo livro Meninas da Noite. Aí eu já tinha me convencido de que eu tinha de ser alguma coisa além de jornalista, então criei uma entidade para ensinar jornalistas a cobrir o tema da infância e dos direitos humanos. A partir daí começou todo um trabalho de desenvolvimento com educação, tanto em termos de mobilização, quanto em termos de produção de materiais didáticos nas escolas para trabalhar a temática dos direitos humanos. E minha vida foi entrando nesse campo de educação e comunicação, simultaneamente.

Portal IT4CIO: Quanto a esse estudo mais específico com Harvard, como surgiu o projeto?

Dimenstein: As coisas vão andando. Eu tinha criado essa entidade, depois fui morar um tempo em Nova York, ligado à Columbia. Tinha intenção de aprimorar a proposta do bairro-escola, que é transformar o bairro e a cidade num espaço educativo ligado à escola. Surgiu então a ideia de criar um mecanismo de comunicação para ajudar nesse processo, e nesse período a Harvard me chamou para fazer um projeto especial, a partir de algum projeto que tivesse na cabeça. E eu levei essa ideia do Catraca Livre, que é uma forma de servir às pessoas utilizando Tecnologia da Informação e ajudando-as a conviver melhor na sociedade usando menos dinheiro. É todo um trabalho voltado a utilizar a tecnologia para melhorar a cidadania.

Portal IT4CIO: Existe um grupo de TI específico para o projeto do Catraca Livre?

Dimenstein: Somos basicamente um grupo de jornalistas que fazem curadoria e distribuindo uma rede de informação. Na parte de TI, temos um Diretor de Tecnologia, mas preferimos fazer uma parceria com uma empresa que também tem esse viés laboratorial que é o Hacklab, e funciona.

Portal IT4CIO: Como utilizar a tecnologia no dia a dia para exercer a cidadania?

Dimenstein: Aí existe um milhão de possibilidades. O Catraca Livre é só um pequeno exemplo, mas o uso do celular já pode servir para educar as pessoas. É extraordinário como o celular consegue levar conhecimento ao cidadão, além de ser uma forma permanente de efetuar denúncias, uma área de uso para baixar conteúdos voltados a conhecer melhor a realidade. Imagino que num prazo um pouco mais longo ele vai ser utilizado para fazer audiências públicas, e num prazo mais longo ainda pode oferecer às pessoas a possibilidade de participar de votações conjuntas na Câmara, no Senado, que agora exige uma série de providências. Enxergo um campo imenso de possibilidades – a questão do lixo, da segurança, dos buracos de rua. Qualquer questão que envolva a relação do indivíduo com sua cidade ou com o estado pode ser trazida no celular, que também permite manifestar o que se está sentindo, exigir mais transparência, cobrar os governantes.

Portal IT4CIO: Para além do cidadão, dentro das empresas e organizações, como aplicar a tecnologia em projetos de cidadania?

Dimenstein: É a mesma coisa. É possível desenvolver fluxos internos de informação cada vez melhores, ajudar as pessoas a se manifestarem e a colaborarem permanentemente. Também se pode imaginar, numa empresa, seja pública ou privada, fazer conexões com a comunidade o tempo todo.

Portal IT4CIO: Observou recentemente algum projeto que tenha chamado sua atenção nesse sentido?

Dimenstein: O que mais me chamou atenção foi o projeto de Harvard com o MIT chamado edX, que é uma plataforma gratuita de ensino a distância. Junto a este, existe outro chamado Courcera, que é de Stanford. Essas universidades estão publicando seus conteúdos online e oferecendo ensino a distância para as pessoas terem certificados. É disseminação de conhecimento numa escala que eu nunca tinha visto antes.

Portal IT4CIO: E no Brasil?

Dimenstein: Isso a USP já está fazendo, além da Unicamp, da PUC-SP e de várias universidades brasileiras que estão disponibilizando seus conteúdos online.

Portal IT4CIO: Você acha que o país explora o suficiente seu potencial tecnológico para avançar na cidadania?

Dimenstein: Eu acho que explora mal. Nessa relação com a sociedade é possível haver muito mais avanços, no sentido de transparência de dados, por exemplo. Ao mesmo tempo, a possibilidade de receber mais informações da comunidade também pode ser muito aprimorada. É todo um trabalho de convencimento: quanto mais transparência e dados para cobrança, melhor o país fica.

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