Especialista em tecnologia, linguística e ensino, o professor Antônio Carlos Xavier é contundente ao cobrar do governo uma ação afirmativa para “compensar a ilegalidade e imoralidade socioeconômica” que dizem respeito à política de inclusão digital desenvolvida no Nordeste. Para ele, não se trata de se oferecer atenção paternalista à região. É a devolução de um direito a quem “historicamente foi aliena do de seus direitos”.

Antônio Carlos Xavier é doutor em Linguística e pós-doutorando em Retórica Digital. Interrompeu seus estudos na França para esta entrevista, concedida pelo Skype - programa que possibilita conversas pela webcam. Ele diz que, apesar da “inércia” do poder público, os nordestinos vêm se incluindo digitalmente.

Tendo conhecimento dos exemplos de inclusão encontrados pela reportagem do Diario nas áreas rurais do Nordeste (histórias publicadas no jornal deste domingo e no www.diariodepernambuco.com.br/nordesteemrede), concluiu: “Os exemplos citados mostram que se forem oferecidas oportunidades para os sujeitos, mesmo em condições desfavoráveis, eles poderão aproveitá-las e transformar a sua realidade e a dos que o cercam”. Clique aqui para acessar, na íntegra, o especial multimídia #NordesteEmRede É possível dizer que o Nordeste está incluído digitalmente? Tecnicamente sim, pragmaticamente nem tanto. Ainda falta muita infraestrutura de conexão aem banda larga com custos mais baixos para estimular as pessoas a usarem a internet sem restrição. O Brasil está entre os países cuja tarifa de conexão é uma das mais altas do mundo. O Ministério das Comunicações tem divulgado que os custos vão baixar, que vai universalizar o acesso e já anunciaram acordos com as operadoras de telefonia para tarifas básicas com valor em torno de R$ 35, o que é ainda um custo muito alto para os salários pagos no Brasil. Contudo, até agora toda esta propaganda não saiu do papel. Os governos estaduais e prefeituras têm feito muito pouco para incluir os nordestinos no mundo digital. Apesar desta inércia do poder público, os cidadãos do Nordeste e de todo o Brasil não têm se acomodado e esperado pelo cumprimento das promessas dos governantes e das operadoras para se incluir digitalmente. Eles sabem que, se dependerem do Estado para isso, vão ficar fora do mundo digital por muito tempo. De que forma tem-se dado essa inclusão, na sua opinião? O desejo de viver a plenitude de sua geração, com conta de e-mail e perfil em rede social, tem levado estes jovens a povoarem as lan houses e a ocuparem voluntariamente os laboratórios de informática, quase sempre subutilizados pelos professores e gestores escolares, para se conectarem. Os computadores estão chegando às escolas, inclusive as da rede pública, mas ainda não foram totalmente absorvidos pelo professor como ferramentas de apoio pedagógico. Pesquisas indicam que o professor e, principalmente, os estudantes, já têm um relativo acesso às máquinas e à internet. Já estão relativamente incluídos digitalmente. Falta ainda haver o casamento entre o mundo escolar e o mundo digital. A chegada da Universidade Aberta do Brasil (UAB), vinculada ao Ministério da Educação, revela-se como uma boa iniciativa do governo federal para incluir academicamente estudantes que raramente teriam acesso à educação superior pela via da inclusão digital. Considero isto uma forma inteligente de inclusão digital. Que papel as redes sociais de relacionamento podem desempenhar no processo de aprendizado? Toda forma de compartilhamento de informação é potencialmente uma oportunidade de aprendizagem. A troca de informação que acontece nas redes sociais, o convívio com a diferença do outro, a sensação de ser “ouvido” são fatores que contribuem direta e indiretamente para a ampliação da bagagem cultural e intelectual de quem participa da rede social. Elas podem ser o lugar em que eles se sintam mais à vontade para interagir com seus colegas e até mesmo com seus professores. E quando estamos em um lugar em que nos sentimos bem, tudo fica mais agradável, inclusive estudar. Para produzir o especial #NordesteEmRede, publicado ontem no Diario de Pernambuco e no site do jornal, descobrimos vários casos de nordestinos plugados e familiarizados com a web, alguns que transferem conhecimento para a vida educacional. É correto afirmar que essas relações extra sala de aula são redes educacionais reais? Se entendermos educação como aprender de um modo geral, a resposta é sim. Na verdade, o sistema de educação formal foi criado para transformar um sujeito “bruto” em um cidadão “civilizado”, isto é, alguém consciente dos seus direitos e deveres, condição fundamental para se viver bem em sociedade. Se a escola conseguir apenas isso, já cumpriu seu papel. Os exemplos citados mostram que se forem oferecidas oportunidades para os sujeitos, mesmo em condições desfavoráveis, eles poderão aproveitá-las e transformar a sua realidade e a dos que o cercam. Como não podemos mais nos furtar do uso das tecnologias, estejamos em Paris ou em Patos da Paraíba, ganharam o garoto de Itapajé, a menina de Francisco Macedo, os professores e as duas cidades como um todo. Uma das competências mais importantes e por isso exigidas do cidadão contemporâneo é a autoaprendizagem. Os nordestinos citados mostraram ser possível desenvolvê-la desde cedo e obter sucesso a partir dela. A fartura de informação na rede mundial de computadores contribui notadamente para que o sujeito desenvolva mais rapidamente esta competência. O acesso à informação é a primeira condição para a aprendizagem. Sem dúvida, a internet é pródiga em dados. O esforço para articulá-las e assim transformá-las em conhecimento é responsabilidade do aprendiz e para tal deve contar com a ajuda do educador. Sonhar, desejar, querer muito, como faz o garoto que sonha trabalhar na Google, é uma atitude que precede o ato de aprender. Sem a predisposição do aprendiz, sem um desejo intenso de aprender, não haverá jamais aprendizagem formal, informal, convencional ou digital. Com quais políticas o Nordeste precisa contar para chegar a um nível de inclusão digital satisfatório? “Ação afirmativa” é uma metodologia de resgate do direito de quem historicamente foi alienado de seus direitos. Longe de ser uma forma camuflada de paternalismo, como apregoam alguns, a ação afirmativa busca devolver a justiça a quem por muito tempo sofreu sem ela simplesmente por ter nascido em uma região que não conseguia ascender seus representantes ao poder. Não há nada que justifique maiores investimentos nas regiões Sudeste e Sul do Brasil em detrimento das demais e principalmente do Nordeste. Se todas as regiões pagam impostos igualmente, porque não distribuir os benefícios de seu retorno também de modo equânime? Está mais do que na hora de rever e compensar esta ilegalidade e imoralidade socioeconômica. Por isso, são necessários mais investimentos em infraestrutura de infovias em territórios historicamente menos privilegiados pelos governantes. São necessários grandes projetos de ampliação da cobertura de cabos de fibra ótica, um considerável aumento no quantitativo de antenas de telefonia, bem como uma maior distribuição de sinal de internet via satélite para conexão em 3G a preços mais baixos para incentivar o acesso à internet também por celular nos estados nordestinos. Subsídios governamentais, menor taxa de imposto e aumento de crédito para aquisição de computadores, notebooks, tablets e smartphones também seriam medidas desejáveis para tirar o atraso digital dos nordestinos. Além disso, os governos estaduais em parceria com as prefeituras deveriam disponibilizar conexão sem fio em alta velocidade para acesso em lugares públicos. Isto tende a criar o hábito de usar a grande rede. Todos sabem, inclusive os políticos, que a internet propicia o exercício da cidadania quando permite que o cidadão acompanhe as ações ou a inércia de seus representantes, visualize os gastos do erário, bem como cobre dos parlamentares suas obrigações com a comodidade e o conforto de seu lar. Talvez seja esse o receio dos políticos e por isso propositadamente retardam em fazer o que sabem que deve ser feito. Quanto mais consciente de seus direitos, mais reivindicador será o cidadão. Saiba Mais sobre Antônio Carlos Xavier *Coordena, como Pesquisador-chefe, o Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação (www.ufpe.br/nehte) na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). *Realiza pesquisas nas áreas de cultura digital, tecnologia, hipertexto e letramento, ensino e análise sociopragmática do discurso *Doutor em Linguística pela Universidade de Campinas, é pós-doutorando em Retórica Digital no Laboratório Paragraphe do Departamento de Hipermídia e Comunicação da Universidade Paris-VIII, França *Professor titular em Linguística no Departamento de Letras da UFPE, ele fundou a Associação Brasileira de Estudos de Hipertexto e Tecnologia Educacional (Abehte) e edita a Hipertextus Revista Digital (www.hipertextus.net ). Também faz parte do conselho editorial de publicações científicas, como a Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Veredas, Investigações: Linguística e Literária, Calidoscópio, Quaestio *Pode ser encontrado no www.facebook.com/#!/tonix35), no Twitter @prof_xavier ou no blog www.ufpe.br/nehte Por Silvia Bessa Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.