Pollyana Ramiro É preciso olhar de frente e sem ilusões: a  social-democracia e o socialismo europeus  acabaram. Acabaram como utopia, como  ideologia e como projeto político autônomo.  De forma inglória, na Itália, Grécia, Portugal  e Espanha, e de forma desastrosa, na França  de Françoise Hollande, com sua xenofobia e seu “belicismo humanitário”; e na Alemanha, dos governos de coalisão e da submissão social-democrata, ao conservadorismo de Angela Merkel, com sua visão “germanocentrica” e hierárquica da União Europeia, e da sua relação com o mundo islâmico. Este espetáculo terminal, entretanto, inscreve-se numa longa história que começou no fim do século XIX, e atravessou várias “revisões” teóricas e estratégicas, e inúmeras experiências parlamentares e de governo, que foram alterando, progressivamente, através do século XX, os objetivos e a própria identidade do socialismo europeu, até chegar ao desastre atual.


Tudo começou em 1884, com a defesa de Eduard Bernstein, da necessidade de modificar ou reinterpretar algumas teses marxistas clássicas sobre a “luta de classes” e a “revolução socialista”, à luz das grandes transformações capitalistas das últimas décadas do século XIX, e das necessidades da luta eleitoral do partido social-democrata alemão, que era o mais importante da Europa, naquele momento.  Segundo Bernstein, o progresso tecnológico e a centralização e internacionalização do capital haviam mudado a natureza da classe operária e a própria dinâmica do sistema capitalista, cujo desenvolvimento histórico já não apontaria mais na direção  da “pauperização crescente”, da “crise final” e da “revolução socialista”.

Como consequência, Bernstein propunha que os social-democratas abandonassem a  “via revolucionária”, e optassem pela via eleitoral e parlamentar de transformação continua,  reformista e endógena do próprio capitalismo. As ideias e propostas de Bernstein privilegiavam incialmente a questão parlamentar, e foi só mais tarde que tiveram um peso importante na decisão dos social-democratas de participar dos governos de “união nacional’ ou de “frente popular”, junto com outras forças políticas mais conservadoras, para enfrentar os efeitos devastadores da I Guerra Mundial,  e da crise econômica da década de 30. 

Os problemas que estavam colocados sobre a mesa, eram o colapso econômico, o desemprego e a inflação, e os social-democratas seguiram a cartilha dos conservadores, até porque não tinham uma visão própria de como enfrentar estes desafios concretos, dentro do próprio capitalismo. Neste contexto, entretanto,  destaca-se  a originalidade do governo social-democrata sueco que respondeu à crise utilizando-se de uma política heterodoxa de incentivo ao crescimento econômico e pleno emprego. A despeito que seu sucesso deva ser atribuído ao atrelamento da economia sueca  ao expansionismo bélico da economia nazista, mais do que as virtudes da própria política econômica do governo social-democrata.  De qualquer forma, o modelo sueco de “pactação social” foi reproduzido mais tarde, com sucesso, pelos governos social-democratas da Áustria, Bélgica, Holanda, e dos próprios países nórdicos, que seguiram sendo governados pelos social-democratas, depois da guerra. Seja como for, o caso sueco foi uma exceção no meio de vários fracassos social-democratas no comando das politicas econômicas rigorosamente ortodoxas e conservadoras dos governos de que participaram, na Alemanha, entre 1928-30; na Grã Bretanha, entre 1929-31; na Espanha, entre 1928-30; e na França, entre 1936-37. 

Logo depois da II Guerra Mundial, os alemães lideraram outra grande revisão doutrinária e estratégica do socialismo europeu que culminou no Congresso do Bad Godesberg, realizado em 1959.  Foi neste momento que os socialistas e os social-democratas europeus abandonaram a ortodoxia econômica e aderiram às teses e às políticas keynesianas, como forma de gerir a economia capitalista com  objetivo de multiplicar os empregos e os recursos necessários para o financiamento de suas políticas distributivas e de proteção social. Dava-se como certo que no médio prazo, as políticas favoráveis à acumulação de capital também teriam efeitos favoráveis para o mundo do trabalho e da igualdade social.

Neste sentido, do ponto de vista lógico e político, a partir deste momento, o sucesso do capitalismo passou a ser uma condição indispensável do sucesso reformista dos socialistas europeus, completando-se um giro de 180 graus, com relação à sua tese clássica de que a liberdade e a igualdade seriam um produto necessário da eliminação da propriedade privada e dos “estados burgueses”. Depois de Bad Godesberg, a nova proposta passou a ser: “liberdade política = igualdade social = crescimento econômico = sucesso capitalista”.

De qualquer maneira, este novo consenso durou pouco, e já na década de 1980, teve início uma terceira grande “rodada revisionista”, quando os socialistas e social-democratas europeus abandonaram o “barco keynesiano” e aderiram às novas teses e políticas neoliberais promovidas em todo mundo, pelos  governos conservadores de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Esta mudança de rumo avançou como um rastrilho de pólvora - a partir de 80 -  na Espanha de Felipe Gonzalez e na França de François Mitterand, e também na Itália de Bettino Craxi, e na Grécia de Andreas Papandreu.  E logo em seguida, na Inglaterra de  Tony Blair, onde foram formuladas as principais teses da “terceira via”, patrocinada pelos trabalhismo inglês, e que era na prática  uma repetição dos mesmos argumentos que  Eduard Bernstein havia apresentado um século antes. Segundo os trabalhistas ingleses,  teria ocorrido uma  mudança do capitalismo e de suas classes sociais que limitava a eficácia da política de classe tradicional e da própria intervenção “keynesiana’ do estado, fazendo-se  necessário uma nova adaptação das ideias e programas socialistas a este  mundo  desproletarizado, desestatizado e globalizado.

No início do século XXI, entretanto, já estava claro que estas políticas e reformas tinham tido um efeito social extremamente negativo, provocando redução simultânea dos postos de trabalho, dos salários, dos gastos sociais e  da segurança dos trabalhadores,  junto com uma enorme concentração e centralização do capital e da renda, em todos os países do continente. Mesmo assim, os socialistas e social-democratas europeus mantiveram e radicalizaram suas novas posições, transformando-se nos defensores mais intransigentes – dentro da União Europeia – dos princípios e políticas ortodoxas e neoliberais que os levaram ao “beco sem saída” em que se encontram na conjuntura desta segunda década do século XXI. 

O problema agora é que  já não se trata mais de uma simples crise conjuntural ou circunstancial, se trata do esgotamento  de um projeto que foi sofrendo sucessivas mudanças estratégicas até o ponto em que perdeu todo e qualquer contato com suas próprias raízes históricas. Primeiro, os partidos socialistas e social-democratas abriram mão da ideia da revolução socialista, e depois do próprio socialismo como objetivo final da sua luta política. Mais à frente, deixaram de lado o projeto de socialização da propriedade privada, e de eliminação do estado, e no final do século XX, passaram a atacar as próprias políticas de crescimento, pleno emprego e proteção social que foram suas principais bandeiras depois da II Guerra Mundial, e que talvez tenha sido sua principal contribuição ao século XX.  Por isto, hoje, os socialistas europeus estão transformados numa caricatura de si mesmos,  sem horizonte utópico, e sem nenhuma capacidade de inovação  política, social e intelectual. Um triste fim para uma utopia e um projeto que fizeram da Europa do século XIX, a vanguarda revolucionário do mundo.

http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Historia-de-um-naufragio-1-/29334

       
 
 
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Oi Bene, estos días enviaste varios links muy interesantes que no tuve tiempo de contestar. Este último en particular me gustó mucho y coincido plenamente. Particularmente en el caso de Europa, creo que hay que dividir por lo menos en dos casos, la europa rica e industrial (Francia, Alemania, Italia) y la periferia europea (España, Grecia, Portugal, etc.). En pocas palabras, creo que el estado de bienestar para los países del primer grupo sufre como sufren las cuentas de cualquier país en recesión, pero tarde o temprano se podrá recuperar. Lo que también creo es que la periferia europea vivió un falso bienestar apoyado en los créditos fáciles otorgados por la Unión Europea para "nivelar el desarrollo" de los países miembros (condición inicial para formar parte de la misma). Creo que en el fondo de la crisis europea desnudó un hecho obvio que no se quería admitir: la población española o griega no puede aspirar a un nivel de vida equivalente al alemán cuando la riqueza generada es significativamente menor. Cuando se terminó "la fiesta" y el crédito, y hubo que empezar a "vivir con lo propio", se chocaron fuerte contra la pared.

Y respecto a América Latina, creo que quizás sacando la Argentina de los 50 y algún otro caso aislado, nunca existió realmente. Si existieron y existen subsidios a la niñez, atención sanitaria, educación gratuita y cosas así, pero es selectivo, de mala calidad y en mi opinión está mal implementado. El "estado de bienestar" latinoamericano serán solo parches para evitar el abandono total de los más necesitados, pero no funciona cuando el 35% de la población lo necesita. En ese caso es solo una ayudita, pero la persona sigue despojada. 

En Argentina, y seguramente en toda AL, el problema no es tanto la pobreza en sí sino la exclusión. Hay una franja de la población que, por más duro que suene, no sirve para nada. No tiene cultura del trabajo, vive en ambientes hostiles, desconoce las posibilidades de progreso en la vida y está acostumbrado a vivir de subsidios. Ellos no tienen la culpa, son décadas de neoliberalismo, desempleo y destrucción del tejido social; sin embargo hasta que la economía no genere puestos de trabajo de calidad y ellos no vean los incentivos de obtener herramientas para progresar, el estado de bienestar va a seguir siendo solo un parche. Se necesitan dos o tres décadas continuas de crecimiento (y desarrollo) como esta última que pasó para revertir la situación (como le sucedió a Corea del Sur, Taiwán y otros países asiáticos, que pasaron de campesinos a clase media urbana en 20 años).

Yo en ese sentido soy cauteloso. Creo que América Latina está disfrutando del dinero que abunda en el mundo que dentro de poco va a volver a casa (Estados Unidos) y ahi va a haber dificultades para todos, directa o indirectamente. Nosotros, mientras, tenemos Cristina para dos años mas. Hasta ahora no ha habido mayores problemas en materia económica, aunque hay muchas desprolijidades (dólar paralelo, inflación). Las críticas hacia a ella son principalmente políticas. Creo que en estos meses se viene algún ajuste, pero no soy necesariamente pesimista. Creo que las nubes llegan más para 2015. Hay que aprovechar.

Estamos en contacto, Saludos!
Ramiro

El 28/10/2013 15:56, Benedito Medeiros Neto escribió:


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